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As gordas em geral não me agradam, daí a surpresa com que recebi aquele emergir quente de adrenalina quando bati o olho em Amanda, no bar da Vila Madalena. Metida num short sumário, exibia pernas roliças, brancas, com incidências de celulite que avaliei moderadas, à luz do entorpecimento etílico. Os peitos, ponto forte das gordas, avultavam decote afora. A cintura perfazia uma reta, das laterais da costela ao final do traseiro, o excesso de carne bem oculto pela camisa de pano grosso. Recheada, sim, embora não obesa – opulência equivalente ao longo do metro e oitenta, no mínimo. O cabelo cor de fogo, picotado numa meia-lua em torno do pescoço, era a porta de entrada para o que tinha de melhor: um rosto corado, limpo, macio, e uma boca com dentes pequeninos, corretos, a formarem uns sorrisos bem cativantes.
Fiz sinal para Ingrid. Pedi detalhes.
– É minha colega de trabalho. Secretária da diretoria lá do jornal. O cara é o namorado.
Chamava-se Fernando, o acompanhante. Magricela, desgrenhado, calçando papetes. Meteu-se a cumprimentar a todos, ainda que o desconhecessem por completo. Sorri para ele quando me estendeu a mão com pressa, faltavam umas dez pessoas até circundar a mesa inteira. Amanda poupou-se; reservada, deu um alô geral, sentou-se logo que o garçom apareceu com cadeiras extras. Então cruzou as pernas – eram com efeito enormes, em diâmetro e extensão. Fixei-me nelas, fascinado. Alvas, potentes, lisas. Esvaziei o copo e aproveitei a passagem do garçom:
– Outra dose com gelo.
Burburinho de conversas gritadas, o bar lotado. Televisores de plasma transmitiam, sem som, partidas de futebol europeu. Variedade de gente circulando, a caminho do banheiro, voltando dele. Na mesa, os assuntos se alternavam, o descontrole das vozes crescente. E as pernas de Amanda, os peitos de Amanda, a me isolarem de tudo.
Veio o uísque. Alguém soltou uma zombaria por eu ser o único a preferi-lo, no lugar de cerveja. Vasculhei, surpreso pela tolice do comentário: Fernando, o namorado. Ergui o copo para ele; retribuiu o gesto, supondo-se afável. Ao lado, Amanda, e foi inevitável que nossos olhos se esbarrassem. Quando finalmente desviei o olhar, encontrei os volumes transbordando pela sua camisa, aberta três botões. Ali me deixei ficar. Se ela notou, fez-se indiferente. Tratou de se integrar à discussão que prosperava animada, entre seus vizinhos de mesa. Falavam sobre responsabilidades do jornalista, questões de mídia, se bem me lembro. Amanda passou a se manifestar sempre com precisão, num tom sóbrio, atrás do qual existia, com se fosse preciso para me incitar de vez, uma mulher dura, pensante, conhecedora de estruturas de persuasão, detentora de farto vocabulário. A uma de suas explanações mais brilhantes observei permanentemente oculto pelo copo à boca, deixando que o gelo me queimasse o lábio superior, forma de extravasar meu êxtase de expectador deslumbrado. Gostaria que Amanda não terminasse nunca sua exposição bem argumentada, desejo intensificado quando a performance incrementou-se de sorrisos pausados, um tanto cínicos, e de gestos bruscos que faziam seus peitos pupularem. Um espetáculo, de fato – brutalmente cerceado pela intromissão de Fernando, vindo de outra conversa ansioso para que nenhuma pessoa na mesa deixasse de conhecê-lo, e às suas opiniões.
Repus o uísque na mesa, cingindo o copo com vigor excessivo, atento ao namorado a tagarelar. Teve a astúcia de, num instante, mudar a conversa para outro rumo que lhe era apropriado. Mencionava agora uma peça teatral, em cujo texto trabalhava havia quase um ano, que tinha entre os personagens um repórter mergulhado em dilemas éticos – além de outros pormenores, descritos com grande entusiasmo, dos quais me esquivei.
Amanda sorria enquanto o namorado falava.
– Sei de cabeça cena por cena, tanto que ele fala dessa peça.
Lamentei por ela, imaginando sua penúria cotidiana ao lado do ator/dramaturgo/diretor quimérico. Ao que parecia, por ora ele se limitava a atuar em montagens amadoras, em porões e casarões sujos do centro, enquanto buscava fundos para sua grande obra.
Foi aí que meu nome entrou na conversa, sem que eu precisasse abrir a boca.
– A empresa em que ele trabalha tem um programa de financiamento para projetos culturais – divulgou burocraticamente a Ingrid, em seguida virou-se para mim: – E é você quem cuida disso lá dentro, não é não?
Reparei no copo com uísque escasso, antes de encarar os olhares que convergiam para mim.
– Cuido. Disso e de mais umas poucas coisas – confirmei, sarcástico. Não soava bem ter minha figura associada à atividade menor que exercia na companhia.
– Não diga? – Fez Fernando, intumescido em minha direção.
Sua expansividade aumentou num grau espantoso, incentivada pelos efeitos da cerveja, que vertia tanto quanto falava. Chegou a trocar de lugar com Ingrid, para se aproximar mais de mim. Administrei com brevidade sua torrente de perguntas, sem deixar transparecer meu desinteresse por tudo o que dizia. Fosse como fosse, era adequado tê-lo sob controle.






